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O fundador

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O INÍCIO DE VIDA DE FRANCISCO DOS SANTOS

Às onze horas do dia 26 de Julho de 1882 nasceu, na freguesia de Moimenta da Serra, Francisco dos Santos, filho dos Moimentenses e humildes jornaleiros, Manuel dos Santos Nogueira e Antónia da Natividade.
Muito cedo ficou órfão e muito cedo teve de enfrentar as durezas da vida, começando muito novo como pastor para poder subsistir.

A sedução por Lisboa, onde pressentia que a vida seria mais atraente, mais fácil e mais risonha impeliu-o a partir para a Capital, trocando a vida pastoril pela profissão de empregado de drogarias e mercearias (marçanito). Mais tarde aprendeu a profissão de carpinteiro.

Um dia entregaram-lhe um livro em que se falava de homens que, à custa de inúmeros sacrifícios, haviam triunfado: Antero, Teófilo, Grandela. Matriculou-se, então, em aulas nocturas.
Tirou o Curso Industrial na Escola Industrial Marquês de Pombal em Lisboa. Como documenta um seu diploma, no ano lectivo 1897-1898, com 15 anos de idade, obteve aprovação com distinção no 1º ano de Desenho Arquitectónico, fez com mérito, aos 16 anos, o 2º ano de Desenho Arquitectónico (1898-1899).

Vocacionado para as Belas Artes obteve, como bolseiro, em Londres, o diploma de Arquitecto, no ano lectivo 1909-1910.  A Escola de Belas Artes de Lisboa conferiu também a Francisco dos Santos, em 22 de Fevereiro de 1926, o diploma de arquitecto, dado a legislação autorizar a profissão aos arquitectos que tenham cursado qualquer escola estrangeira de arquitectura, de reconhecido mérito.

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FRANCISCO E LAURA DOS SANTOS

Francisco dos Santos conheceu em Lisboa a bondosa senhora D. Laura da Purificação Santos, nascida no ano de 1883, na freguesia de Santos-o-Velho com quem contraíu matrimónio, aos 29 anos de idade, e no dia 17 de Dezembro de 1911.

A meritosa carreira profissional, a sabedoria e cultura contribuíram para indigitarem o Eng. Arquitecto Francisco dos Santos para um prestigioso lugar no Ministério da Cultura da 1ª República.

Mas a sua dignidade foi ferida por questiúnculas políticas, levando-o a não aceitar o lugar proposto e decidir a emigrar para o Brasil. 0 seu mérito, saber, competência, nomeadamente na arquitectura, mereceram os maiores elogios e homenagens, testemunhados em numerosos diplomas e medalhas de oiro, ganhas em exposições e concursos, conferidas pelas mais altas entidades, dos quais alguns podem ser observados no Museu/Biblioteca.

Francisco dos Santos não esqueceu Portugal e Portugal não esqueceu o seu talento, competência e dinamismo. Através da Assembleia Geral da Sociedade dos Arquitectos Portugueses, reuniu no dia 24 de Janeiro de 1924, especialmente convocada para o arquitecto português entregar à Direcção da referida Sociedade uma mensagem de saudação enviada pela Sociedade Central dos Arquitectos do Brasil, acompanhada de um pergaminho artístico, com o objectivo primordial de se estabelecer entre os arquitectos Portugueses e Brasileiros, o mais intimo contacto. Este grande acontecimento foi notícia a nível da imprensa nacional, como se pode verificar na Revista "Ilustração Portuguesa" (Edição semanal do Jornal "O Século"), de 2/2/1924 (2 ° série, n.o 937),

UM PERCURSO NOTÁVEL

Foi o próprio Francisco dos Santos, que fez o seu auto-retrato moral e profissional, na seguinte carta que escreveu em 5 de Abril de 1936:

 Ex.o Sr. Presidente da Direcção do Sindicato Nacional dos Arquitectos:
"...Como referi, e pela mesma ordem como o fiz, principiarei por dizer a V. Ex.a que, sem pergaminhos de berço como tantos outros, fui atirado muito novo, por inclinação, primeiro, e por paixão depois, para a arte de desenhar, projectar e construir, encontrando-me já quinquagenário sem a mais leve neblina, confusão ou mazela de qualquer natureza, tendo percorrido todas as décadas com limpidez cristalina, sendo um cidadão estruturalmente honesto, com qualidade morais inconcussas, com um carácter íntegro e cheio de nobreza, tendo-me feito à minha custa própria, sem amparo de ninguém. Todos os meus actos na vida têm sido norteados por uma sã moral e todas as minhas transacções e trabalhos têm sido tratados e executados com seriedade absolutas, satisfazendo a todos os compromissos assumidos pela maneira mais cabal e mais perfeita compostura, como é próprio de homens de honra. E note V. Ex.a que a minha carreira é das mais imensamente laboriosas conhecidas, toda ela feita à luz clara do Sol, seguindo sempre e normalmente pelo leito da longa estrada da dignidade, nunca tendo resvalado para o escoante das valetas ou para os tortuosos caminhos da ignomínia.
(...)
Há vinte e cinco anos Arquitecto diplomado e reconhecido por três Países (Inglaterra, Brasil e Portugal), ininterruptamente venho exercendo a minha profissão de forma a merecer as mais gratas referências e as mais altas recompensas honoríficas. A minha actuação no Rio de Janeiro, inegavelmente uma das mais belas e formosas cidade do Mundo, aonde deixei projectadas e construídas mais de seiscentas edificações, sempre em concorrência e competição com os mais distintos arquitectos de todas as nacionalidades, especialmente Brasileiros, Italianos, Franceses, Espanhois e Alemães.
(...)
E se não fôra assim todo o meu labor no exercício da minha profissão, não teria eu conquistado - e conquistar não é mendigar - honrosas distinções, como, por exemplo:

- Arquitecto-Chefe da Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do Rio de Janeiro;
- Sócio Correspondente da Société Centrale d'Architecture de Belgique (Société Royale);
- Sócio Correspondente da Associació d'Arquitectes de Catalunya;
- Sócio Correspondente e Efectivo da Sociedade Central de Arquitectos do Rio de Janeiro;
- Premiado com Medalha de Ouro pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro;
- Hors-Concours pelo Conselho Superior de Belas Artes do Rio de Janeiro;
- Premiado com Medalha de Ouro na Exposição Internacional de 1922, do Rio de Janeiro;
- Premiado com Medalha, digo Grande Medalha de Ouro, especialmente cunhada e a mim exclusiva e excepcionalmente destinada, pela Venerável e Arquiepiscopal Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do Rio de Janeiro;
- Segundo premiado no Concurso para o Monumento dos Heróis da Laguna, aberto pelo Gôverno da República do Brasil; Primeiro classificado no Concurso para as Fachadas do Palácio Municipal do Rio de Janeiro...

Com os protestos da minha maior simpatia e grato reconhecimento, faço ardentes votos.

Lisboa, 5 de Abril de 1936

 

A VIDA E DEDICAÇÃO À ESPOSA

Essencialmente, após 1923, ano que regressou do Brasil, começou a adquirir um valiosíssimo acervo artístico e bibliográfico dos mais consagrados autores nacionais e estrangeiros tendo alcançado uma vasta fortuna e património artístico e literário.

A 28 de Janeiro de 1953, enviuva. O povo de Moimenta mostrou sempre grande afecto pela D. Laura, chorando a sua morte. Dois anos depois, os restos mortais da virtuosa senhora D. Laura da Purificação Santos são transladados de Lisboa para o mausoléu de Moimenta da Serra, mandado erigir pelo Arquitecto.

O casal não teve descendentes, e Francisco dos Santos decide deixar a sua  em prol dos velhinhos, das crianças e do desenvolvimento cultural dos seus conterrâneos de Moimenta da Serra.

A fim de concretizar estes intuitos, o arquitecto cria a Fundação Laura dos Santos, como última homenagem que prestou à sua adorada esposa, como atesta o seu testamento.

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Mausoléu de Francisco dos Santos,
no cemitério de Moimenta da Serra

TESTAMENTO DE FRANCISCO DOS SANTOS NUMA HOMENAGEM À SUA ESPOSA

Eu, abaixo assinado, Francisco dos Santos, viúvo, Eng. Arquitecto, residente em Lisboa, na Avenida António Augusto de Aguiar, 84-1ºDtº no uso pleno das minhas faculdades mentais, e sem qualquer coação, faço meu testamento e disposições de última vontade, da maneira seguinte:
(...)
Querendo dar público testemunho da admiração e profunda saudade pela minha querida e chorada mulher, desejava que os bens que eu possuísse à hora do meu falecimento, fossem aplicados no bem da pobreza da minha terra; por isso, desejo fundar ali, em lugar acessível uma Instituição que perpetue a recordação de quem foi minha leal e devotada companheira de quarenta e dois anos de casados, e seja um lar e um refúgio para os pobres e necessitados daquela freguesia, para o que adquiri um terreno, ainda que não seja próprio em lugar como eu desejaria, se fará ali construir e instituir essa Fundação denominada "Casa dos Pobres de Moimenta Dona Laura dos Santos e seu marido Francisco dos Santos", a quem lego os meus bens sujeitos às disposições estabelecidas neste testamento, de maneira que nada seja alterado ainda que para isso tenham de ser modificados os Estatudos aprovados, e publicados no Diário do Governo em 20 de Junho de 1962, a meu requerimento.
(...)
Minha Laura e querida Mulher: perdoa lá na Eternidade, se o valor espiritual deste meu Testamento, feito hoje em dia dos teus anos, não interpreta bem o teu desejo revelado em vida.
Aos Homens, principalmente aos da minha terra, e à Santa Casa da Misericórdia do Porto, cumpre agora executá-lo; a mim chorar-te até à morte e depois repousar junto de Ti.
Lisboa, 26 de Dezembro de 1962
Francisco dos Santos

O FIM DA VIDA E O INÍCIO DA OBRA

DSC00507Mas Francisco dos Santos não conseguiu ver concretizada a sede da Fundação, projectada com um desenho da sua autoria.

Foi às 5 horas, do dia 18 de Dezembro de 1966, que Francisco dos Santos, com 84 anos de idade deixa o Mundo dos vivos, falecendo na sua casa em Lisboa. Atribuiu-se a causa próxima do falecimento a uma queda, quando procedia às arrumações e à organização do valioso património museológico e bibliográfico.

Mas a sua memória e da sua adorada esposa, como costumava referir-se a Dª Laura dos Santos, perdura ainda hoje, através da importantíssima obra que é esta instituição, quer para o conselho como para todos aqueles que através dela conseguem ter um melhor bem-estar.